pelo escritor Mario Augusto Pool

NO VERÃO DE 75

Havia duas coisas importantes na minha infância e que eram imprescindíveis no meu dia a dia: a primeira, inventar coisas; a segunda, conviver com meu avô. Pensava muito nas imagens e textos dos livros técnicos que meu pai comprava e da farta biblioteca que a minha casa possuía - um privilégio para um país que, na década de 1970, beirava os 34% de analfabetismo. Ver experimentos e tecnologias das revistas Tecnirama e Mecânica Popular me fascinava. Precisava fazer mais, além da simples leitura. Precisava concretizar, construir. E, para isso, contava com a companhia do meu velho, um comandante de rebocador aposentado e que dava vazão à minha imaginação. 

Meu avô era um velho inteligente, hábil, descendente de holandeses que construíram os molhes da barra de Rio Grande. Adorava ferramentas e construir coisas. Nos fundos da sua casa, estava o melhor lugar do mundo para um menino de 11 anos sonhar e realizar seus sonhos. Era lá onde ficava a grande oficina do seu Pedro, um lugar como poucos, um verdadeiro templo do conhecimento e das possibilidades. A oficina era bagunçada, com restos de materiais por todos os lados, um espaço livre da organização da minha avó. Bancadas velhas de madeira davam o tom do uso intenso das ferramentas e das ideias postas em prática. Algumas davam certo, outras nem tanto, mas os protótipos se multiplicavam entre desenhos técnicos e maquetes. Tudo ali continha os seus significados e as suas ciências. 

Ao longo da semana, a minha principal tarefa era juntar latas de óleo, material valiosíssimo para confeccionar qualquer projeto. O flandres da lata era consistente, maleável, e o lado interno era polido e liso como metal de primeira. Brilhava. E o mais importante de tudo: o material aceitava solda de estanho. Com isso, manipular as latas, abri-las e depois passá-las no rolo para desamassar era uma das etapas mais emocionantes.

No verão de 1975, um submarino da esquadra da Marinha de guerra brasileira atracou no porto de Rio Grande. Era um sonho. Ver uma belonave preta era um evento para poucos. Lembro bem do seu nome: “Tonelero”. A mais temível arma de guerra dos mares estava ali, perto de mim, algumas quadras da casa do meu avô. 

Era um sábado e a visitação ao público estava confirmada para as duas horas da tarde. Como não poderia ser diferente, lá estávamos, meu avô e eu, de mãos dadas e prontos na fila aguardando nossa vez de entrar na tão sonhada embarcação.

O “vô Pedro” vestia seu melhor terno, usava uma aboaturada de ouro da capitania dos portos de Rio Grande e, no bolso do paletó, pregou um pin com a insígnia da Marinha mercante, na qual servira como marinheiro até se aposentar como comandante.

Passaram-se alguns minutos e a ansiedade era imensa. Meu sorriso e excitação não cabiam no franzino corpo. Um marinheiro fez um sinal e nós éramos os próximos. Como em um encantamento, a cada passo dado, estávamos na barriga da mais cobiçada nave de guerra que o mundo inventara. 

Entramos por uma escotilha na proa e saímos do outro lado acessando a segunda escotilha que ficava na popa do submarino. Meu olhar só enxergava as múltiplas luzes coloridas piscando, marcadores e ponteiros girando, o famoso periscópio subindo e descendo e a temida sala dos torpedos com seus tubos prontos para lançar. 

Lembro que, nessa época o sonho mais inatingível das crianças da classe média brasileira era conhecer a Disney. Meu sonho era diferente. Eu me realizava com outras aventuras. Naquela tarde de sábado, a minha Disney havia aportado em Rio Grande.

Retornamos para casa do meu avô e, por alguns instantes, nos olhamos. A mensagem telepática foi a mais clara de todas. Trocamos as roupas de sair pelas roupas sujas de inventar e, juntos, partimos para a nossa oficina. De lá, surgiu o primeiro submarino em escala 1:100 produzido na cidade de Rio Grande. Fruto do sonho do menino e da habilidade do avô, a belonave era linda em seus mínimos detalhes. De cor negra e cinza, com letras brancas e muitas partes móveis, ela incluía o famoso periscópio que subia e descia como os de verdade.

Há muito tempo, meu avô partiu. Trocou o mar pelo céu. A saudade daquelas tardes ainda é a melhor lembrança que tenho dos meus dias de menino. De lá para cá, entendi que alguns saberes podem ser herdados e que, mais do que aprender, está o prazer e o desafio em querer fazer coisas. Esse foi o grande legado do meu avô Pedro. 

Nunca mais me separei da oficina. Até hoje, carrego ela em minha casa. Meus filhos também passaram por lá, mas não com tanta ênfase. O mundo digital encanta mais do que um martelo. É preciso respeitar o tempo e a geração para qual cada coisa foi construída. A oficina é atemporal apenas para mim. Um universo particular, só meu. 

Com a chegada do meu primeiro neto, o Otto, tive a certeza de que em algum momento vou poder reviver a melhor experiência de infância. Sob o olhar de um outro avô, tal como o meu, que carinhosamente alimentou e construiu meus sonhos, fazendo aflorar a minha criatividade, talvez seja a hora de trazer para a história da minha família a crença de que realizar sonhos sempre é possível, mesmo que comecem com uma simples lata de óleo e um martelo.

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