pelo escritor Mario Augusto Pool

NA MARGEM

- Sabia que eu te encontraria de novo aqui. Putz! É a terceira vez nesta semana. E pior, na mesma hora.
- Estas águas tem mexido comigo, acho que elas me atraem.
- Foi aqui que o encontraram, não foi?
- Sim, foi.
- E nesta hora também?
- Não sei. Mas foi na hora que eu consegui chegar e ver.
- Depois daquele dia nós nunca mais saímos. Não ficamos mais juntos. Você não me toca, me evita e nem tem falado mais comigo. Mesmo pelo celular. O que eu faço? Ou melhor, o que eu fiz?
- Nada! Ele era o nosso melhor amigo, você não ficou mal com tudo isto? 
- Sim, linda! Mas já faz um mês! Eu também estou muito triste, ninguém quer perder ninguém. Era o meu brother. Mas eu acho que não mereço perder mais nada. E parece que isto pode acontecer de novo. Você sabe que é a parte mais importante da minha vida. Foi um acidente! Não se pode fazer mais nada agora.
- Acidente? Como você sabe? Ele nadou a vida inteira neste lago...
- Então! Ele nadava bem pra caralho. Está na cara que alguma coisa aconteceu.
- De roupa, lindo? Pensa! Por que nadaria de roupa?
- Você continua com esta ideia de que ele fez isto por vontade própria?
- Obvio! Só você não quer admitir isto.
- Ele não tinha motivos. A gente se conhecia muito. Ele era feliz. Passamos o melhor fim de semana das nossas vidas no dia anterior. Lembra da festa? Maior alegria.
- Será que ele não tinha motivos mesmo?
- Minha linda, você está me assustando. O que você sabe? Qual é o mistério?
- Nós dois também temos algo com o que aconteceu.
- Temos? Não fizemos nada!
- Éramos felizes, meu lindo! Éramos muito felizes e isto foi demais para ele. Não precisávamos ter demonstrado tanta felicidade sabendo como ele era.
- Você está piorando as coisas cada vez mais. O que tem a ver a nossa felicidade com o que aconteceu?
- Tudo! Ele não aguentava nos ver juntos. 
- Delírio seu! Sempre botou pilha pra eu chegar em você. Curtiu demais quando falei que a gente tava ficando. Que merda você tá falando?
- Será mesmo? 
- Claro que sim, linda! Quando falei que estava a fim de você o cara deu o maior pode crer! Falou na minha cara, vai lá que eu te dou força, ela é a maior gata!
- E você não acha estranho que o teu parceiro diga isto depois de ter tentado ficar comigo por quase três meses? Fez de tudo pra que eu olhasse pra ele, aguentou todos os foras que eu dei, e mesmo assim rondava a minha casa todos os dias. Mandava Whats, sentava no meu lado em aula, e pagava a banca de maior apaixonado.
- Sim, mas o cara era de caráter, foi só tentação. Quando falei que estava a fim de ti ele ficou do meu lado e saiu fora. Maior respeito!
- Posso te perguntar uma coisa?
- Claro.
- Você é apaixonado por mim? Me ama de verdade?
- E você tem dúvida disto, linda?
- Não, nenhuma. Só tenho dúvida do que você seria capaz de fazer se soubesse que eu não ia mais te querer.
- Ficaria mal, você sabe disto.
- Lembra do que fizemos na festa?
- Sei lá? Foi um acampamento? Fizemos muita loucura.
- Sim, mas uma que nunca deveríamos ter feito.
- Não sei do que você está falando.
- Ficamos os três na mesma barraca, lembra?
- Claro! E dai?
- Você insistiu em fazer na frente dele.
- Minha linda! Ele tava bêbado, tava dormindo. Completamente doido.
- Não estava! Ele estava chorando, estava muito mal. Viu e ouviu tudo. 
- E isto é motivo pra alguém fazer o que você diz que ele fez?
- Quando se está loucamente apaixonado por alguém que não te dá a menor chance, eu acho que sim. Ele era frágil, tinha os seus problemas e nós nunca nos interessamos em saber, nunca nos interessamos em ajudar.
- Está bem! E se você estiver certa, Isto tudo é para que eu me sinta culpado?
- Não! Isto tudo é para que você se sinta amado. Para que eu me sinta amada. Da próxima vez que você pensar em nós, lembra que alguém já morreu porque amava muito. Isto talvez mude como sentimos as coisas daqui para frente.
Afinal, tem gente que até morre por amor. 
- E tem gente que mata por amor.
- Nem brinca com isso. 
- As águas, de alguma maneira, mexem comigo também. Me fazem sentir e fazer coisas que jamais imaginei fazer.
- Como amar de verdade? 
- Talvez. Ou deixar um amor à margem de um rio. 

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