pelo escritor Mario Augusto Pool

O ENCONTRO

Os respingos de chuva contra a janela do carro aumentavam no instante em que eu aliviava o pé do acelerador. Era emprestado e eu não morava ali. O local do meu encontro - inabitado. Talvez uma casa ou um velho barracão. Mas sabia que iria valer apena, era furtivo, um lugar incerto e desconhecido na beira da lagoa. Meu coração saltava e os meus hormônios também. Mais madura e experiente, ela me deixou muito a vontade em nosso primeiro encontro. Com olhos no trânsito e nas construções que iam surgindo, percebi em seguida que havia chegado. Estacionei e caminhei aos poucos na direção da única porta existente. Na casa, sinais de que alguém já estava lá. Tudo aquilo era excitante. Sentia no ar o cheiro acre da casa morta há tantos anos, largada à própria sorte naquela rua de ninguém. Uma gota de suor escorreu da minha testa, circundando as espinhas que revelava o quanto garoto eu ainda era. Fechei a porta atrás de mim e parti em direção da única claridade tênue que irradiava pela soleira de um dos cômodos. Minhas mãos suaram dento dos bolsos do jeans, ainda que estivesse tão frio quanto era possível, mas o calor maior vinha do meu corpo e do meu desejo de estar naquele lugar. Junto da luz refletida no velho assoalho coberto de pó e de sujeira, um aroma doce e suave de incensos exalava entre as velhas tábuas. Lá dentro, em um leito de edredons e lençóis coloridos, dezenas de pequenas velas acesas revelavam a silhueta delicada de um corpo nu, de um rosto angelical e de um olhar de consentimento e de cumplicidade. Era o sinal que me convidava para deitar e compartilhar. Vesti apenas os meus instintos, os meus desejos e a minha virilidade. Respondi sorrindo. Ouvi o assobio longo e lamurioso do vento passando pelas frestas das portas e janelas. Um arrepio gelado correu por minha espinha. Ofegantes, respiramos fundo na última contração. Éramos um só corpo. Deitado naquele chão, eu ainda continuava sendo um menino. O meu sorriso apenas se desfazia ao tragar aquele saboroso cigarro sem marca e incandescente que eu também acolhia no carinho e no calor dos meus lábios.

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