pelo escritor Mario Augusto Pool

O FAROL

Por algum motivo que pouco importa, meu carro havia parado bem a frente das ruínas de um velho farol na praia em que minha família costumava passar o verão. Foi no final da minha adolescência que aquele gigante bastante judiado pelo tempo entrou na minha história e foi um amigo importante presente nas minhas lembranças.

O sol brilhava, mas pouco aquecia. A brisa fria em minhas pernas e a água da beira mar que batiam nos meus pés me fazia lembrar que ainda estávamos em setembro. Caminhar na praia sozinho se tornara um hábito. No inverno os finais de semana daquele balneário ficavam desertos e eu tinha pouca companhia. Sem meus amigos eu precisava de alguma distração. Me mantinha calmo durante o dia para poder agitar durante a noite. Sempre fui baladeiro, gostava de curtir uma noite forte. Era na madrugada que eu me transformava. Como diziam os meus amigos, sempre prontos para as “malvadezas” da noite. Dançar, ficar, agarrar, pichar, beber, brigar, transar e até mesmo fumar, bastava ter a parceria certa. Algo me dizia que aqueles finais de semana obrigatórios, com a família na praia durante o inverno não eram casuais. Garotos gostam de diversão e prazer, coisas sérias geralmente se deixa para os mais velhos assumir e resolver. O que para muitos podia ser visto como malandragem ou irresponsabilidade, para mim eu chamava de estilo. Mas a experiência daquela manhã traria uma emoção muito mais forte do que a melhor das noites intempestivas já tidas na cidade. Continuei a caminhada passo a passo deixando as pegadas na beira mar. Sabia que as ondas as apagariam por mim, afinal de contas fazia parte do meu “estilo".

Ao sul da praia, distante uns cinco quilômetros da última casa habitada havia um velho farol, abandonado pelo tempo e sem mais nenhuma utilidade para a navegação. Suas ruínas serviam apenas para encontros rápidos de quem não tinha a opção de uma cama confortável e para a maioria havia se tornado em um grande sanitário. No verão o lugar servia de mocó para a gurizada queimar um baseado e ficar alojados até poder voltar para a casa. Um lugar sujo, como todo prédio abandonado deve ser. 

Decidi entrar, coisa que só havia feito uma única vez, mas naquele dia o lugar me chamou a atenção. Fui tomado por uma curiosidade. Na parte debaixo, praticamente soterrada pela areia da praia, apenas paredes pichadas, restos de sujeiras e garrafas velhas de cerveja e vodka jogadas ao chão. No centro da sala ficava a base circular da torre do farol. Nela uma porta, trancada com tábuas que haviam sido pregadas ao entorno do marco de carvalho escuro. Por suas frestas pude ver o fosso que dava inicio a longa escada em caracol que levava ao topo. Meus olhos brilharam por alguns instantes. Um sorriso talvez de moleque tenha alterado a minha face. Queria subir e ver o que havia lá no alto. Com muito esforço e usando um porrete de madeira encontrado no chão, comecei a desprender as tábuas que mantinham aquela porta lacrada. Não demorou muito e a primeira delas cedeu e com mais algumas porretadas tudo veio abaixo. Podia ouvir minha respiração e sentir a batida do meu coração. Havia uma porta aberta e os seus segredos diante de mim. A escada era feita de aço, e estava bastante enferrujada, mas me convidava para subir. Pisei nos degraus frios e úmidos tomando muito cuidado. Pés descalços e aço enferrujado não são bons parceiros. No topo da escada mais um obstáculo, outra porta trancada, mas diferente da primeira esta não estava pregada. O último que esteve ali fechou-a com uma chave. Lembrei em um momento de despedida. Batendo com meu ombro fortemente contra a guarda da porta, percebi que ela aos poucos ia cedendo. A cada investida meu rosto se contraia e meus lábios apertavam. Fui ao extremo e com mais um golpe vi a velha porta se escancara e meu corpo ser jogado no interior do velho farol. 

Estava no topo, uma sala circular e iluminada por vidros ao redor. Era a primeira vez que eu via o mar e a praia andarem tão juntos por uma imensidão. Aquele lugar tinha a sua história. Nada restava ali a não ser uma velha mesa de madeira com uma gaveta ao centro, uma cadeira apodrecida e no centro um pedestal de aço e concreto onde ficará no passado as grandes lentes e lâmpadas que davam vida ao farol. Por um bom tempo fiquei admirando a vista e vendo o horizonte ao longe. A atmosfera do lugar, por anos intocado, fazia a minha imaginação ir além do que eu sabia sobre o velho farol e a sua história. Não havia mais o que fazer ali.

Ao sair, olhei a gaveta no centro da mesa e abri. No fundo dela um envelope úmido e mofado, dentro uma carta escrita sem remetente. Sentei sobre a mesa e cuidadosamente abri para ler.

“ Estimados amigos, saudações! Após todos estes anos de convívio e cumplicidade chegou a hora de lhes dizer Adeus. Muitas foram as noites em claro onde o faixo desta luz intermitente me ajudou a apaziguar a disputa entre as ondas e as tempestades que o seu rival ali na frente enfurecidamente nos surpreendia. A cumplicidade dele com os ventos fortes da região nos obrigou a compreende-lo e também a respeita-lo. Todas as noites a força da sua luz invadia sem medo e sem licença muitas milhas mar a dentro. Salvamos muitas vidas e trouxemos de volta para casa barcos e marinheiros que nunca conhecemos. O farol é solitário e o faroleiro um desconhecido. Nem sempre o mar nos foi intempestivo, em muitas ocasiões nos presenteou com a visão inesquecível das noites calmas, do horizonte limpo, da luz da lua rasgando o mar e da infinita colcha de estrelas que encantavam os navegantes e a nós dois também. Foram momentos mágicos e que aqui quero agradecer. Lembro da minha chegada nesta praia, dos meus sessenta anos e da profunda tristeza que eu trazia com a morte da mulher que mais amei na vida. Queria ficar longe de tudo e sozinho. Aqui do alto por vez pensei em terminar a minha história. Nada mais coerente do que um faroleiro bêbado despencando do alto de seu farol. Mas foram vocês, na sutileza da sua construção e na imensidão do seu parceiro, que encontrei razões para entender que a vida pode ser feita pelo encontro dos solitários. E que estes dão sentidos um ao outro, afinal de contas para que serve um farol sem um mar? Ou de um mar em que não se pode navegar. 
Há alguns anos, quando a guerra iniciou, nos disseram para ficar atentos e armados, fomos transformados em soldados e recebemos rádios e patentes, poderia haver uma invasão. E navios perdidos precisariam da nossa orientação. Lembro da noite em que um cargueiro explodiu ao longe. Durante um bom tempo escutei os gritos dos afogados. Na manhã seguinte alguns corpos haviam chegado à beira da praia. Eram todos jovens marinheiros e que encerravam ali os seus sonhos. Nunca mais pensei em saltar do meu farol e naquela tarde enterrei a ultima garrafa de bebida que comprara.
Hoje estou indo embora, saio feliz por estes anos em que enfrentei os meus fantasmas e me conectei com as minhas verdades. Mesmo solitário aprendi a não ser só e ter a companhia de dois bons amigos, você meu farol e guardião dos meus segredos e o mar, testemunha dos meus enfrentamentos. Obrigado amigos, pela acolhida, por ser confidentes e por todos os momentos vividos aqui. Talvez, no futuro, outro errante encontre vocês, e também perceba a relação bonita entre um e outro. Que isto também sirva para dar um novo sentido a esta alma. Um outro espaço para ser feliz da mesma forma quanto eu fui na companhia de vocês, o farol e o mar. “ - Benjamin Corbo, dezembro de 1956.


Voltei a fitar o mar e percebi que algo estava diferente, talvez melancólico. Aquela história parecia também ser minha. Era uma carta para qualquer destinatário, mas eu havia sido o primeiro e não sabia ao certo o motivo. Olhos baixos e rosto apagado, guardei a carta em seu envelope e a depositei de volta na gaveta da mesa de Benjamin. Encostei a porta e desci as escadas. Lá fora a praia continuava a esperar pela minha companhia. No interior do farol, antes de sair, fixei meus olhos nas coisas jogadas por ali, as garrafas de bebidas, as paredes pichadas, as baganas de cigarro, as embalagens de camisinhas e até mesmo as pontas dos baseados destoavam completamente daquele lugar e da sua história. Lembrei imediatamente das “malvadezas” da noite e de como que as minhas atitudes me separava do mundo dos meninos e do mundo dos homens. 

Ainda hoje, quando passo pelo farol, compreendo a magia daquela manhã. Ao sair dali sabia que teria outras escolhas na minha vida. 

Estacionado aqui, frente à imponente construção, jamais pude esquecer as palavras naquele papel. Um diário comum, mas no momento certo para o leitor que precisava. Até hoje escuto algumas histórias interessantes de pessoas que estiveram ali. Talvez a carta do faroleiro Benjamim ainda esteja por lá e venha protagonizando mudanças sob a sombra da velha amizade que existe entre o farol e o mar.

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